Estigma...

"Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos."
Ary dos Santos

Não vês...


"Não vês a Bomba e crês nos marcianos ...

E é para ti que escrevo, é para ti
Que um verso lanço - O mão! - como o destino,
e nele ponho mesura, desatino,

Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto?
Antes para soldado ou para resto,
Escroto de velho, ronco de suíno ..."


Alexandre O'Neill

Fim de tarde...










































Sr. João...


"eras novo
ainda mal sabia reconhecer os teus própios erros e o uso violento que de noite eu fazia deles esta cama de minerais acesos escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido onde a memória te imobilizou enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis surpreendo-te quando me surpreendes pela janela espio a paisagem destruída e o coração triste dos pássaros treme quando escrevo mar o mar todo entra pela janela onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço"

Al Berto

Os efeitos...






































E os amigos...


Os Amigos

"No regresso encontrei aqueles que haviam estendido o sedento corpo sobre infindáveis areias tinham os gestos lentos das feras amansadas e o mar iluminava-lhes as máscaras esculpidas pelo dedo errante da noite prendiam sóis nos cabelos entrançados lentamente moldavam o rosto lívido como um osso mas estavam vivos quando lhes toquei depois a solidão transformou-os de novo em dor e nenhum quis pernoitar na respiração do lume ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar a flor que murcha no estremecer da luz levei-os comigo"

Al Berto






































































































Coisas da natureza...















































Sim, eu sei...


"Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

Deixem-me crer

O que nunca poderei ser."


Fernando Pessoa

O meu mundo...


"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa"


Sophia de Mello Breyner

Cais palafítico...






















O espírito da natureza...












Sob todas as coisas....


Amigos...


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

Estados...


"Passamos pelas coisas sem as ver,

gastos,como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,

como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos."

Eugénio de Andrade

O beijo...as pessoas....




Acrilic on Canvas - Legião Urbana


"...É saudade, então

E mais uma vez

De você fiz o desenho mais perfeito que se fez

Os traços copiei do que não aconteceu

As cores que escolhi entre as tintas que inventei

Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos

De um dia sermos três

Trabalhei você em luz e sombra

E era sempre,

Não foi por mal

Eu juro que nunca quis deixar você tão triste

Sempre as mesmas desculpas

E desculpas nem sempre são sinceras

Quase nunca são

Preparei a minha tela

Com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar

A armação fiz com madeira

Da janela do seu quarto

Do portão da sua casa

Fiz paleta e cavalete

E com lágrimas que não brincaram com você

Destilei óleo de linhaça

Da sua cama arranquei pedaços

Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes

E fiz, então, pincéis com seus cabelos

Fiz carvão do baton que roubei de você

E com ele marquei dois pontos de fuga

E rabisquei meu horizonte

E era sempre,

Não foi por mal

Eu juro que não foi por mal

Eu não queria machucar você

Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez

E era sempre, sempre o mesmo novamente

A mesma traição

Às vezes é difícil esquecer:

"Sinto muito, ela não mora mais aqui"

Mas então, por que eu finjo

Que acredito no que invento?

Nada disso aconteceu assim

Não foi desse jeito

Ninguém sofreu

É só você que me provoca essa saudade vazia

Tentando pintar essas flores com o nome

De "amor-perfeito"

E "não-te-esqueças-de-mim"


...para ti amigo, porque um dia te lembraste de mim...

Momentos....







Existência....